Caminhos do Campo fortalece a agricultura familiar
A trajetória da Caminhos do Campo nasceu da experiência direta com os desafios enfrentados pela agricultura familiar e, principalmente, da percepção de que produzir é apenas uma parte do caminho. Para a empresa, um dos principais gargalos do pequeno produtor está na comercialização e na busca por mercados capazes de garantir renda e sustentabilidade à atividade rural.
Em entrevista ao programa Rumo ao Campo, da Rádio Planetário 91.5 FM, neste sábado, 22 de agosto, Dione Nicolodi contou detalhes da trajetória profissional e da criação da Caminhos do Campo. Natural de Colorado, Dione é formada em História pela Universidade de Passo Fundo e atuou durante 18 anos como professora da rede pública.
A aproximação com a agricultura aconteceu de maneira inesperada. Depois de deixar a sala de aula, Dione passou a dedicar-se ao cultivo em uma pequena propriedade adquirida pela família no interior de Quinze de Novembro. O que inicialmente surgiu como uma atividade para ocupar o tempo acabou se transformando em uma experiência empresarial.
O primeiro investimento foi na produção de flores. A propriedade chegou a contar com cerca de mil metros quadrados de estufas e uma estrutura de comercialização que permitia entregar produtos para a rede Zaffari. A experiência, porém, também revelou as dificuldades de competir com grandes fornecedores e mostrou a necessidade de encontrar alternativas de mercado para a produção familiar.
A atividade foi direcionada posteriormente para a produção de hortaliças sem agrotóxicos. Durante anos, Dione comercializou hortaliças e frutas diretamente aos consumidores. A venda porta a porta, inicialmente realizada por meio de contatos e grupos de WhatsApp, permitiu identificar um problema recorrente: muitos agricultores conseguiam produzir, mas encontravam dificuldades para vender.
Foi a partir dessa experiência que surgiu, em 2020, durante a pandemia, um projeto que posteriormente foi patenteado junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial. A proposta consistia em reunir produtos da agricultura familiar do próprio município em uma sacola retornável, acompanhada de orientações sobre alimentação saudável, para serem adquiridos por empresas e destinados aos funcionários.
O modelo buscava aproximar empresas, trabalhadores e agricultores familiares, criando um canal de comercialização para os produtores. O projeto começou com empresas menores e chegou a alcançar a entrega de centenas de cestas mensais, especialmente em Quinze de Novembro. A iniciativa, no entanto, fez Dione perceber que seria necessário ampliar a atuação para que o impacto sobre a agricultura familiar fosse ainda maior.
A partir daí, a Caminhos do Campo passou a direcionar seu trabalho para a elaboração e implantação de programas voltados à agricultura familiar, buscando oportunidades junto aos governos municipal, estadual e federal. Dione passou a estudar programas públicos, participar de cursos e buscar conhecimento sobre sistemas e plataformas que poderiam ser utilizados pelos municípios para ampliar o acesso dos produtores a políticas públicas e mercados.
Hoje, a empresa atua especialmente na área de comercialização e desenvolvimento de oportunidades para a agricultura familiar. Dione destaca que seu trabalho não é técnico na produção agrícola. A função da Caminhos do Campo está justamente em identificar onde existe demanda, criar caminhos para a venda e aproximar agricultores, poder público e consumidores.
Em Espumoso e Soledade, municípios onde atualmente desenvolve seu trabalho, a empresa também atua na estruturação de iniciativas relacionadas à segurança alimentar, programas públicos e feiras do produtor. Segundo Dione, a análise começa pela realidade de cada município, considerando fluxo de pessoas, localização, melhores dias e possibilidades de comercialização.
A organização das feiras é apontada como uma das estratégias para dar visibilidade aos agricultores e aproximar a população dos produtos locais. Em Quinze de Novembro, por exemplo, uma mudança de localização da feira para a entrada da cidade, considerando o fluxo de turistas, contribuiu para ampliar as vendas. Em 2023, a iniciativa movimentou cerca de R$ 50 mil em 90 dias.
Para Dione, experiências como essa demonstram que a agricultura familiar precisa ser observada também sob a perspectiva comercial. Não basta produzir: é necessário compreender onde está o consumidor, o que ele procura e como criar condições para que o agricultor tenha acesso a esse mercado.
Outro exemplo citado durante a entrevista ocorreu em Soledade, com a busca por ampliar o acesso de produtores a um programa de distribuição de sementes de milho. A articulação com uma associação e uma cooperativa permitiu ampliar o número de agricultores cadastrados e elevar de 120 para 235 sacas de milho o volume destinado ao município. A ação beneficiou cerca de 80 produtores e possibilitou que aproximadamente 40 famílias a mais fossem contempladas.
A atuação da Caminhos do Campo também envolve a defesa de uma visão regional para a agricultura familiar. Para Dione, municípios pequenos não precisam tentar produzir tudo individualmente. A alternativa está na integração entre diferentes localidades, permitindo que cada município desenvolva determinadas produções e, posteriormente, uma estrutura regional de distribuição seja criada.
A proposta busca reduzir o volume de recursos que deixa a região para a compra de alimentos produzidos em outras partes do Estado ou do país. Dione defende que uma parcela maior desse dinheiro permaneça circulando entre os próprios municípios, fortalecendo agricultores, comércio e consumidores.
Nesse contexto, a produção de frutas aparece como uma das grandes oportunidades. Laranja e bergamota, por exemplo, já demonstraram forte potencial de comercialização nas feiras de Espumoso. Segundo Dione, somente durante o inverno foram comercializados mais de 300 quilos dessas frutas.
A empresa também trabalha para incentivar novos cultivos, como pêssego, ameixa e maçã. A ideia não é estimular grandes áreas de produção de imediato, mas começar com pequenos pomares, utilizando algumas dezenas de plantas e diversificando a produção ao longo do ano.
A diversificação pode permitir que pequenas propriedades gerem renda em diferentes períodos, além de ampliar a oferta de alimentos produzidos na própria região. Durante a entrevista, Dione citou a avaliação de um técnico que apontou um potencial de renda de aproximadamente R$ 250 mil por hectare de maçã em determinadas condições e modelos de comercialização, embora a proposta defendida por ela seja voltada inicialmente para pequenas produções e para o mercado regional.
A visão também se aplica a propriedades que atualmente são utilizadas apenas para lazer ou que possuem áreas consideradas pouco aproveitadas. Para Dione, existe a possibilidade de transformar esses espaços em pequenas unidades produtivas, desde que sejam identificadas culturas adequadas e, principalmente, canais de comercialização.
Essa preocupação com a venda está no centro da atuação da Caminhos do Campo. A experiência pessoal de Dione mostrou que o produtor pode ter capacidade de produzir, mas desistir quando não encontra mercado. Por isso, a empresa procura atuar justamente nesse ponto, identificando oportunidades antes de estimular novos investimentos.
Outro conceito defendido durante a entrevista foi o da economia circular. A proposta é fazer com que o dinheiro gerado pela agricultura familiar permaneça na própria região. O produtor vende localmente, recebe pela produção e utiliza seus recursos no comércio regional, criando um ciclo que beneficia diferentes setores da economia.
Para Dione, a agricultura familiar possui potencial para ampliar significativamente sua participação no abastecimento regional. A região tem produção, consumidores e agricultores, mas ainda importa grandes volumes de alimentos de outras localidades. Reduzir essa dependência poderia gerar benefícios tanto para quem produz quanto para quem compra.
A Caminhos do Campo busca, portanto, atuar como uma ponte entre essas duas pontas. De um lado, produtores que precisam de mercado; de outro, consumidores e instituições que necessitam de alimentos. No meio desse processo, a empresa procura identificar oportunidades, organizar projetos e auxiliar os municípios na criação de políticas e iniciativas voltadas à agricultura familiar.
A trajetória de Dione também representa uma mudança de carreira construída a partir da própria experiência. Depois de anos dedicados à educação, encontrou na agricultura familiar uma nova área de atuação. Hoje, afirma sentir-se realizada ao acompanhar a transformação dos produtores com quem trabalha.
Em Espumoso, ela destaca especialmente a evolução de agricultores que começaram tímidos nas primeiras feiras e, com o tempo, passaram a ocupar seus espaços, ampliar a produção e conquistar maior autonomia. Para Dione, esse resultado demonstra que o fortalecimento da agricultura familiar vai muito além da geração de renda: envolve autoestima, reconhecimento e desenvolvimento das comunidades.
Com uma atuação cada vez mais regional, a Caminhos do Campo pretende ampliar a integração entre municípios, produtores e consumidores. A meta é encontrar novas formas de comercialização, fortalecer as feiras, estimular a diversificação produtiva e criar condições para que mais alimentos sejam produzidos e consumidos dentro da própria região.
A mensagem deixada durante a entrevista é de que existem oportunidades no campo, inclusive para pequenas propriedades. O desafio está em identificar essas oportunidades, organizar a produção e, principalmente, construir os caminhos para que o produtor consiga vender.
É justamente nesse espaço que a Caminhos do Campo concentra sua atuação: transformar potencial em oportunidade e aproximar a agricultura familiar dos mercados que podem garantir sua continuidade e seu crescimento.
Acompanhe o podcast completo abaixo.




