Família de produtor rural morto em ação policial em Pelotas atribui responsabilidade ao Estado
A família de Marcos Nörnberg, produtor rural de 48 anos morto durante uma ação policial na zona rural de Pelotas, na Região Sul do Rio Grande do Sul, responsabiliza o Estado pelo ocorrido. A posição foi manifestada publicamente pelo enteado da vítima, Rodrigo Mota, de 29 anos, em entrevista concedida ao programa Gaúcha Hoje Zona Sul, da Rádio Gaúcha, ao comentar a nota divulgada pela Brigada Militar após a morte de Marcos, registrada na quinta-feira (15).
Segundo Rodrigo, a família ainda vive um momento de forte abalo emocional e não conseguiu, até o momento da entrevista, analisar de forma detalhada o posicionamento oficial da corporação. Ele relatou que todos os esforços têm sido direcionados ao amparo de Raquel, sua mãe e esposa de Marcos, além da organização dos procedimentos decorrentes da morte.
“A gente ficou tão imerso em cima dessa situação toda que basicamente não conseguiu acompanhar a notícia, não conseguiu de fato acompanhar rede social”, afirmou.
Rodrigo contou que estava no centro de Pelotas no momento em que a tragédia ocorreu e que, desde então, a família passou a lidar com uma sucessão de informações fragmentadas. Mesmo sem uma avaliação aprofundada da nota oficial, ele afirmou que já existem contradições perceptíveis nos relatos apresentados até agora.
“A gente já tem consciência de que existem muitas incoerências, a gente já tem consciência de que existe mais de um depoimento e que, a cada depoimento, mudam as coisas. Não tem essa constância”, declarou, ao questionar a versão inicialmente apresentada pelas autoridades.
Ao tratar diretamente da responsabilidade pela morte de Marcos Nörnberg, o enteado foi enfático ao afirmar que, na avaliação da família, a falha não se restringe à conduta individual dos policiais que participaram da abordagem.
“O erro de ontem não foi o erro de quem puxou o gatilho. O erro de ontem foi o erro de quem comandou a ação”, disse.
Na sequência, Rodrigo associou a responsabilidade à estrutura estatal, destacando que a Brigada Militar atua como órgão do Estado.
“A Brigada Militar responde pelo Estado. Então, o responsável pelo que aconteceu ontem com a minha família foi o Estado, o governo”, afirmou.
Ele também informou que a família já iniciou os encaminhamentos para buscar responsabilização formal pelo ocorrido, tanto na esfera administrativa quanto judicial.
“A gente vai correr atrás da justiça. A gente já está correndo atrás da justiça, com a Corregedoria e com todos os órgãos responsáveis”, completou.
Marcos Nörnberg era produtor rural e feirante, vivia com a família na zona rural de Pelotas e era conhecido na comunidade local. Ele morreu durante uma ação policial que, conforme a apuração inicial, teria sido desencadeada a partir de uma informação equivocada, que levou os agentes até a propriedade onde ele residia.
O sepultamento de Marcos ocorreu na manhã desta sexta-feira (16), no Cemitério São Francisco de Paula, em Pelotas. Ainda durante a manhã, familiares entregaram à Polícia Civil imagens das câmeras de segurança da propriedade rural, que possui duas residências, dois galpões e uma estufa destinada à produção de morangos. O material deve ser analisado no curso da investigação.
O caso está sob responsabilidade da Polícia Civil, com acompanhamento do Instituto-Geral de Perícias (IGP). Paralelamente, a Corregedoria da Brigada Militar instaurou um inquérito policial militar para apurar as circunstâncias da ação.
Em nota divulgada na tarde de quinta-feira (15), a Brigada Militar informou que a intervenção ocorreu durante buscas relacionadas a um roubo a residência registrado na terça-feira (13). Conforme a corporação, um caseiro teria sido mantido refém por cerca de 36 horas, e três veículos, além de um reboque, teriam sido roubados.
A nota também relata que, na quarta-feira (14), na cidade de Guaíra, no Paraná, a Polícia Militar local prendeu dois suspeitos, de 20 e 21 anos, ambos moradores de Pelotas e com antecedentes criminais. Eles estariam em posse dos veículos roubados e teriam ligação com o crime ocorrido no sul do Estado.
Ainda segundo a Brigada Militar, com base em informações repassadas pela Polícia Militar do Paraná, foi planejada uma operação em um endereço rural de Pelotas, onde haveria outros envolvidos, armas e veículos roubados. Durante a averiguação, os policiais teriam se deparado com um homem armado, que não teria obedecido às ordens e efetuado disparos contra a guarnição, o que teria resultado em confronto e na morte do indivíduo no local.
A corporação informou que a área foi isolada para os trabalhos periciais e que, com o homem, foram apreendidos uma carabina semiautomática, cerca de R$ 27 mil em dinheiro e uma quantia em dólares.
As investigações seguem em andamento e devem esclarecer as circunstâncias da operação, as informações que motivaram a ação policial e as versões apresentadas pelas partes envolvidas.
Fonte: GZH




