Engenheira agrônoma detalha uso técnico de agrotóxicos em entrevista no programa Rumo ao Campo
Na manhã deste sábado, 10 de janeiro, o programa Rumo ao Campo, transmitido pela Rádio Planetário e com exibição simultânea pelas redes sociais, abriu espaço para um debate aprofundado sobre um dos temas mais sensíveis e estratégicos do agronegócio brasileiro: o uso de agrotóxicos. A entrevista foi conduzida pelo jornalista Fernando Kopper, que recebeu nos estúdios a engenheira agrônoma Nidgia Maria Nicolodi, profissional com sólida formação acadêmica e ampla experiência prática no setor.
Nidgia é engenheira agrônoma formada pelo Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS), campus Ibirubá, mestra em Agricultura de Precisão pelo Colégio Politécnico da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), atualmente doutoranda em Engenharia Agrícola também pela UFSM e professora substituta no IFRS campus Ibirubá. Filha de agricultores produtores de soja e leite, ela carrega uma vivência direta com a realidade do campo, aliando conhecimento técnico, acadêmico e experiência familiar.
Logo no início da conversa, a agrônoma contextualizou sua trajetória profissional, destacando que a escolha pela agronomia foi fortemente influenciada pelo ambiente em que cresceu. Segundo ela, a vivência desde a infância nas atividades agrícolas despertou o interesse pela área, mas foi o ingresso no Instituto Federal que abriu as portas para a formação acadêmica e para uma visão mais crítica e técnica da produção agrícola moderna. Após a graduação, Nidgia atuou diretamente a campo, inclusive com trabalhos de perícia agrícola, experiência que, conforme relatou, foi decisiva para aprofundar sua reflexão sobre o uso de agrotóxicos.
Durante a entrevista, Nidgia foi enfática ao afirmar que, dentro do atual sistema produtivo baseado em monoculturas e produção em larga escala, os agrotóxicos são, hoje, uma ferramenta indispensável. Ela explicou que não existe monocultivo de soja, milho ou outras grandes culturas sem o uso desses insumos e que a produção orgânica, embora possível, exige muito mais estudo, mão de obra e planejamento, sendo inviável para atender, de imediato, a demanda global por alimentos.
Ao mesmo tempo, a engenheira agrônoma ressaltou que reconhecer a dependência dos agrotóxicos não significa ignorar seus impactos. Ela destacou que há, sim, contaminações de solo, água e alimentos, e que esse cenário exige uma abordagem equilibrada, baseada em ciência, legislação, fiscalização e conscientização. Nidgia lembrou que o Brasil é atualmente um dos maiores consumidores de agrotóxicos do mundo, não apenas por opção, mas em função do clima tropical e subtropical, que dificulta a quebra natural do ciclo de pragas e doenças ao longo do ano.
A entrevista avançou para uma análise detalhada dos riscos à saúde humana, especialmente para os trabalhadores rurais. Nidgia explicou a diferença entre os riscos agudos, relacionados ao contato imediato e inadequado com os produtos, e os riscos crônicos, que se acumulam ao longo dos anos de exposição. Entre os problemas associados estão doenças neurológicas, diferentes tipos de câncer e outras complicações de saúde, com destaque para a maior vulnerabilidade das mulheres agricultoras, devido a fatores fisiológicos e hormonais.
Para os consumidores, a agrônoma trouxe dados que apontam avanços importantes. Segundo ela, o Brasil tem conseguido reduzir significativamente a contaminação de alimentos por agrotóxicos nas últimas décadas, resultado direto de legislações mais rígidas, fiscalização e maior responsabilidade técnica. Ainda assim, reforçou que isso não deve levar ao abandono do consumo de frutas, verduras e legumes, já que os benefícios nutricionais desses alimentos superam os riscos, especialmente quando são adotadas práticas simples como lavagem adequada e higienização com soluções indicadas.
Outro ponto amplamente debatido foi o impacto ambiental do uso inadequado dos agrotóxicos. Nidgia explicou que essas substâncias não afetam apenas as pragas-alvo, mas interferem em todo o ecossistema agrícola, reduzindo populações de insetos benéficos, inimigos naturais e alterando o equilíbrio ambiental. Esse processo, segundo ela, acaba gerando um ciclo vicioso de maior dependência química, além de contribuir para a contaminação de cursos d’água por meio da erosão e da lixiviação dos produtos.
A engenheira também abordou a questão da fiscalização e foi crítica ao afirmar que, muitas vezes, ela é mais rigorosa com pequenos agricultores do que com grandes produtores. Relatou situações presenciadas em campo envolvendo contaminação de rios e mortandade de peixes sem a devida responsabilização dos envolvidos, defendendo que a fiscalização ambiental e o cumprimento da legislação devem ocorrer de forma igualitária.
No que diz respeito à legislação brasileira, Nidgia explicou que o processo de registro de um agrotóxico passa por três órgãos federais, Ministério da Agricultura, Anvisa e Ibama, responsáveis por avaliar eficiência, riscos à saúde humana e impactos ambientais. Ela alertou ainda para os riscos do uso de produtos contrabandeados ou não registrados no Brasil, prática que, além de ilegal, expõe agricultores a prejuízos econômicos, riscos à saúde e danos ambientais severos.
A entrevista também destacou alternativas para reduzir a dependência química, como o manejo integrado de pragas, o uso de biológicos, a diversificação de culturas e o planejamento agrícola de longo prazo. Nidgia explicou que essas estratégias exigem conhecimento técnico, paciência e políticas públicas que incentivem tanto o produtor quanto o consumidor a mudar hábitos produtivos e alimentares.
Ao final, a engenheira agrônoma reforçou que a agricultura sustentável não depende apenas da vontade individual do agricultor, mas de um conjunto de ações que envolvem políticas públicas, assistência técnica, educação, pesquisa científica e conscientização da sociedade. Para ela, sustentabilidade significa garantir que a terra continue produtiva não apenas hoje, mas também para as próximas gerações, evitando a degradação do solo, o aumento da dependência química e os impactos ambientais irreversíveis.
A entrevista no Rumo ao Campo trouxe um panorama técnico, equilibrado e aprofundado sobre o uso de agrotóxicos, contribuindo para qualificar o debate e oferecer informação baseada em ciência, longe de simplificações ou discursos extremos, reforçando a importância do conhecimento como ferramenta central para o futuro do agronegócio brasileiro.
Com informações: Jornalista Fernando Kopper




