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Decisão de soltar principais réus no caso da boate Kiss transforma dor em revolta

31.05.2013 08h35  /  Postado por: upside

Depois de quatro meses da tragédia de Santa Maria, familiares e amigos das 242 vítimas do incêndio na boate Kiss acreditavam já ter ultrapassado todos os limites da dor. Com auxílio terapêutico, se esforçavam dia a dia para ressignificar a perda. Por orientação da polícia e do Ministério Público, apostavam em manifestações “pacíficas e ordeiras” para converter o luto em causa coletiva.
Diante da decisão judicial de soltar os quatro principais réus, usando como um dos argumentos a ausência de clamor popular, os parentes agora sentem-se traídos. Arrependem-se dos gritos contidos desde aquele 27 de janeiro, que ontem se traduziram em manifesto por justiça. Com a ferida reaberta, descobrem uma nova dimensão da dor, desta vez convertida em revolta.
Uma das primeiras reações extremadas foi o tapa desferido por uma mãe no rosto de um dos defensores dos donos da boate, o advogado Jader Marques, na saída do julgamento, na quarta-feira. Apesar de ter prevalecido o entendimento na 1ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de que a prisão cautelar não seria mais necessária a esta altura do processo, os familiares também se sentiram esbofeteados pela decisão dos desembargadores. Um dos trechos da decisão assinala:
“A verdade é que, passados quatro meses desde o infausto, já não se fazem mais presentes os aspectos da ordem pública ressaltados pelo magistrado no decreto prisional: o clamor público e a necessidade de resguardar-se a credibilidade da Justiça”.
— Nós fizemos o que a polícia, o Ministério Público, o juiz e os defensores públicos nos pediram: “Adherbal, segura a população que nós vamos revelar e dizer coisas que vão afetar e desagradar muita gente”. Nós cumprimos nosso dever de casa, fizemos tudo o que nos pediram e levamos um belo puxão de tapete. No caso da Eliza Samudio (ex-amante do goleiro Bruno), era apenas uma vítima e havia comoção. Os suspeitos foram presos preventivamente porque havia comoção. Então, com 242 vítimas não há comoção? — desabafou o presidente da Associação das Vítimas e Sobreviventes da Tragédia, Adherbal Ferreira.
Revoltados, familiares prometem subir o tom. Durante protesto na Praça Saldanha Marinho, nesta quinta-feira, membros da associação formaram um círculo e mostraram cartazes, pintaram o nariz de vermelho. Expressaram sentimentos com gritos em um megafone.
— A Justiça quer ouvir os gritos? Eles vão ouvir os gritos! — disse a dona de casa Marise Oliveira, 49 anos, que perdeu um filho no incêndio.
Testemunha do esforço diário dos envolvidos para ressignificar a dor, a psicóloga Melissa Haigert Couto, diretora do departamento de voluntariado da Cruz Vermelha, observa que o processo de elaboração do luto regrediu.
— Eles estão revivendo a morte dos filhos com a mesma dor daquele dia, é como se a vida dos filhos não valesse. E a dor vem aumentada, porque vem junto com a revolta — observou.
Aumenta procura por psicólogos
Questionado sobre a decisão dos desembargadores, o prefeito Cezar Schirmer preferiu não se manifestar. Preocupados com a comoção pública, psicólogos do serviço de Acolhimento 24 horas, ligado à prefeitura, se reuniram na tarde desta quinta-feira para discutir novas estratégias de atendimento à população.
— Sentimos que aumentou a procura por auxílio e estamos em prontidão. Esse fato nos assinala que o trauma está longe do fim — analisou o psicanalista Volnei Dassoler, do comitê gestor.

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